Bastidores da política

Não foi muito diferente do que se esperava. Temer venceu, com uma vitória mais magra, e conseguiu suspender o andamento da denúncia contra ele. O desafio, agora, vai ser reunir apoios para retomar uma pauta de votações – o que muitos chamam de “agenda positiva” para o país.

O placar de 251 votos mostra que Temer não teria força para aprovar sequer projeto de lei, o que exige 257 votos – a metade mais um dos deputados.

Mas na situação atual, não cabe essa conta. Até porque, muitos deputados que votaram com Temer diziam pelos corredores do Congresso que esta votação seria o limite do desgaste que assumiriam em favor do governo. Há, porém, casos de deputados que foram contra Temer, mas concordam com a pauta de reformas a ser retomada – caso de alguns tucanos.

Os aliados do presidente Temer esperam dele, já no primeiro momento, um “rearranjo do governo”, o que na prática é remover tucanos de cargos importantes para dar mais espaço aos partidos mais fiéis.

Isso é dito abertamente, por exemplo, pelo líder Arthur Lira (PP-AL). Até aqui, Temer resistiu a esta pressão, mas não se sabe como ele poderá conduzir o governo e a base daqui em diante.

A pretensão do governo é retomar a votação da reforma da Previdência, a partir do relatório do deputado Arthur Maia – mas, bem mais enxuta e dando preferência a medidas que não dependam de emenda constitucional.

Uma coisa o governo Temer pode comemorar: ao longo de pouco mais de cinco meses, desde que vieram à tona as gravações do empresário Joesley Batista, as denúncias foram tema único no país e, ainda assim, a inflação ficou em patamares baixos e com redução da taxa de juros, como foi decisão do Banco Central nesta quarta, de corte de 0,75 ponto percentual.

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Quarta-feira, 25/10/2017, às 13:40, por Cristiana Lôbo
Falta de entusiasmo dos contra e dos favoráveis
Nem parece que a sessão da Câmara iniciada às 9hs desta quarta-feira (25) tem como objetivo decidir se afasta um presidente da República ou se o mantém no Palácio do Planalto até o fim do ano que vem – salvo apareçam novas denúncias. Não se vê discursos apaixonados ou mesmo fortes. São discursos chochos, apenas “para cumprir tabela” e manter a sessão aberta para o momento da apreciação da segunda denúncia contra Michel Temer.

Os opositores de Temer estão evitando a tribuna porque, se quiserem discursar, terão suas presenças registradas no painel eletrônico e isso ajudaria o governo em seu principal desafio que é alcançar o quórum de 342 deputados para dar início à votação da denúncia.

Com isso, a tribuna está sendo ocupada quase que exclusivamente (até aqui) por parlamentares que vão votar pela suspensão da denúncia. E esse discurso não é o que mais agrada ao político. Afinal, trata-se de um presidente com baixíssima popularidade.

O número de deputados dispostos a defender Temer publicamente é tão pequeno que os poucos que fazem isso estão se revezando na tribuna. Mauro Pereira (PMDB-RS) sai, entra Marquezelli (PTB-SP). Depois, volta Marquezelli e é seguido por Mauro Pereira. E assim a sessão chegou a ter 267 presenças, por volta das 12h30.

A falta de paixão numa sessão que vai decidir para onde vai o poder tem uma razão: quase ninguém está falando o que gostaria. A opinião pessoal está distinta do discurso oficial. Os defensores da manutenção de Temer no poder têm muita afinidade com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

E trocar Temer por Maia não seria um mal negócio político para eles, afinal, evitariam o voto em favor de presidente tão desgastado e ainda teriam um presidente amigo, afinado.

Algo parecido acontece com a oposição, que tem feito movimento no Salão Verde para impedir a entrada de parlamentares na sessão. Sobretudo, petistas, que querem Lula candidato à Presidência.

Para esses deputados petistas, manter Temer no Palácio do Planalto, cada vez mais desgastado e sem energia, melhor. Então, eles dão satisfação a seu eleitorado, votando pelo afastamento, mas estão de olho no calendário eleitoral e nas perspectivas da oposição em 2018.

Esse também é o papel do governador Geraldo Alckmin, candidato a candidato do PSDB à Presidência da República. O tucano declarou apoio a Temer, mas não virou um único voto da bancada paulista em favor do presidente.

Alckmin não quer ser hostil a Temer, que já está próximo do prefeito João Doria (que, aliás, levou R$ 1 bilhão para obras na capital paulista) porque espera, também, ser agraciado com recursos federais. Dos 13 deputados do PSDB de São Paulo, apenas Bruna Furlan votou com Temer – muito mais pela proximidade de sua família com o ministro Aloysio Nunes Ferreira (PSDB).

Em suma, poucos estão ali falando o que pensam ou o que é melhor para seu projeto político. O resultado é uma sessão modorrenta, arrastada. E com previsão de vitória de Temer, com placar mais apertado do que na primeira denúncia.
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Terça-feira, 24/10/2017, às 22:08, por Cristiana Lôbo
Governo vê propostas de Dodge como ‘mais sensatas’ para mudar portaria
De todas as sugestões apresentadas para a reformulação da portaria do Ministério do Trabalho que mudou o conceito de trabalho análogo à escravidão, o governo faz questão de dizer que “as mais sensatas” foram feitas pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

Dodge tem repetido que a iniciativa do governo é um retrocesso em relação à legislação que vigorou até aqui.

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