Organizadora de concurso da Ufba foi alvo de outras fraudes na Bahia




(Foto: Arquivo CORREIO)

Desde 2011, ao menos dois concursos feitos pela AOCP no estado tiveram trapaça
São meses de preparação, chega o dia da prova e o candidato descobre que todo o empenho pode ter sido em vão, por conta de trapaças no concurso público daquela vaga tão sonhada. Essa situação já aconteceu com algumas seleções e virou alvo de operação. Desta vez, quem está sendo investigado é o concurso da Universidade Federal da Bahia (Ufba), que tem mais de 72 mil inscritos e está na mira do Ministério Público Federal (MPF-BA). A prova para técnicos-administrativos da Ufba acontece no próximo domingo (29). Mas o MPF-BA vem recebendo representações de candidatos que alegam que o certame está sob suspeita de fraude.
Quem organiza o concurso é o Instituto Assessoria em Organização de Concursos Públicos Ltda (AOCP). E não é a primeira vez que o grupo vira alvo de fraudes. Neste mês, a seleção para agentes penitenciários do Ceará foi lesado por uma quadrilha com policiais militares. Durante a aplicação da prova, 26 pessoas foram presas, no dia 2. Os candidatos usavam pontos eletrônicos. Na Bahia, o instituto AOCP também protagonizou dois concursos com fraudes: o do Ministério Público da Bahia (MP-BA), em 2014, e o concurso para a Câmara Municipal de Salvador, em 2011.
Novas investigações
Esta semana, durante a 4ª fase de investigação a uma quadrilha que frauda concursos em todo o Brasil, a Polícia Civil da Paraíba encontrou menções à prova da Ufba.
Diante das representações, o MPF-BA decidiu investigar o caso. Por meio da assessoria, o órgão informou que ainda não designou um procurador que ficará responsável pelas diligências do caso, mas que a escolha deverá ser feita “em breve”.
“Quando o procurador for escolhido, ele irá requisitar informações dos órgãos envolvidos, como da Ufba, da Polícia Civil da Paraíba, entre outras”, explica o MPF-BA.
Em 2016, a fraude aconteceu com o concurso da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), na seleção para os hospitais universitários Alcides Carneiro e Julio Maria Bandeira de Mello, ambos da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), na Paraíba, e Hospital Regional de Lagarto, da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
A mesma quadrilha que trapaceou no concurso da Ebserh é suspeita de estar planejando favorecer candidatos durante a prova da Ufba, o que foi descoberto durante a Operação Gabarito.
Fraudes na Bahia
No caso do concurso do MP-BA, o Conselho Nacional do Ministério Público determinou a suspensão do certame após denúncias de candidatos sobre o número incipiente de candidatos aprovados na avaliação psicológica e falta de transparência na correção das provas.
Já no da Câmara Municipal, a fraude foi detectada após muitos candidatos terem alcançado nota máxima na redação. Para resolver a situação, o MP-BA firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em que as redações foram recorrigidas e, por isso, a empresa não foi indiciada.
A promotora Rita Tourinho foi responsável pela investigação das duas fraudes na Bahia, mas disse que não pode atuar na suspeita atual.
“A Ufba é federal e, por conta disso,  a investigação fica a cargo do MPF-BA. A gente investigou ao menos duas denúncias de fraude em concurso que essa empresa administrava”, explica a promotora.
Suspensão
Questionado sobre a possibilidade de suspensão ou cancelamento do concurso, o MPF-BA disse ao CORREIO que essa decisão caberá ao procurador responsável pela investigação. “É possível que haja suspensão, adiamento, cancelamento, realização do concurso. Enfim, muitas possibilidades”, disse o MPF-BA.
Procurada novamente pela reportagem, a Ufba voltou a classificar as denúncias como “boatos” e afirmou estar “convicta de que tais especulações são infundadas”.
Por enquanto, a data da prova está mantida para o domingo (29). No entanto, a Ufba informou que a situação foi encaminhada para a Procuradoria Federal junto à universidade, que acompanhará o caso.
Reforço na prova
Segundo o Instituto AOCP, medidas de segurança estão sendo adotadas para prevenir, inibir e penalizar qualquer tentativa de fraude. No entanto, a organizadora disse não poder detalhar o esquema de segurança. Em nota, a AOCP disse que “trabalha em parceria com organismos de segurança pública para, em conjunto, coibir e destituir irregularidades que venham a prejudicar a lisura dos certames”.
Para o dia da prova, o instituto informou que “mais uma vez as forças estarão focadas na tranquila, segura e justa aplicação da prova”. 
Segundo o delegado Lucas Sá, que está à frente das investigações da Operação Gabarito, na Paraíba, o Instituto AOCP procurou a delegacia, na manhã de ontem, informando que vai contribuir com o inquérito. “A AOCP entrou em contato com a delegacia e demonstrou total interesse em ajudar”, disse. Segundo ele, quando não há colaboração, “isso só faz ajudar os criminosos”.
Ainda de acordo com o delegado, como a investigação está acontecendo aqui na Bahia, a Polícia Federal baiana vai ser acionada: “Não teremos como ir pra lá, então vamos ter uma atuação conjunta da Polícia Civil, do instituto e entraremos em contato com a Polícia Federal da Bahia”.
A reportagem entrou em contato com a Polícia Federal da Bahia, mas não obteve respostas sobre o envolvimento nas investigações. A Associação dos Trabalhadores Técnico-Administrativos das Federais na Bahia (Assufba) também foi procurada para comentar as suspeitas, mas os diretores não foram localizados.
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Suspeito prometia prova antes de contrato com AOCP
As conversas descobertas pela Polícia Civil da Paraíba entre os integrantes da quadrilha suspeita de fraudar concursos públcios são do dia 10 de março deste ano. Em um dos diálogos, o suspeito diz: “A UFBA vou está (sic) com todos os tipos de prova”. Mas o Instituto AOCP, que organiza a prova aqui, só teve o contrato fechado com a Ufba em julho deste ano, apesar de o edital do concurso ter sido divulgado em agosto do ano passado.
Para o assessor jurídico da Associação Nacional de Apoio aos Concursos (Anpac), Danilo Fernandes Christófaro, esse pode ser um golpe dentro do esquema de fraudes, já que eles não teriam como ter acesso à prova de seleção antes que a organizadora fosse definida.
Mensagens estão sendo analisadas desde agosto, na Operação Gabarito (Foto: Reprodução)
“Tem uma coisa que acontece, as pessoas prometem as provas e enganam. Algumas pessoas querem ser espertas, mas acabam no prejuízo porque as provas ainda não existem. É preciso investigar até que ponto essa conversa é verídica e se essas pessoas têm ligação com a organizadora ou com a gráfica que imprime as provas, por exemplo”, explica Christófaro.
Por causa disso, Danilo pondera que a decisão da universidade é acertada em manter a prova para o domingo (29). “Enquanto é uma suspeita, é complexo de anular a prova, porque às vezes é uma mera suspeita que vai prejudicar tanta gente. A universidade se preparou pra fazer esse concurso. Não é qualquer boato que seria motivo para adiar a data da prova, que tem consequências de todas as ordens”, observa Danilo.
Conversa entre membros da quadrilha foi interceptada pela polícia paraibana (Foto: Reprodução)
Ainda de acordo com Christófaro, não existe uma lei de concursos públicos no Brasil – ou seja, sem uma legislação específica, também não há uma ferramenta que fiscalize a aplicação das provas.
Fonte: CORREIO

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