
A violência contra crianças e adolescentes continua sendo um dos principais desafios sociais do país e, segundo dados recentes, tem atingido vítimas em idades cada vez menores. O Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela um aumento significativo das notificações de violência sexual contra crianças nos últimos dez anos e destaca que grande parte dos casos ocorre dentro do ambiente familiar.
De acordo com o estudo, as notificações envolvendo crianças de até quatro anos passaram de 1.671, em 2014, para 7.845 registros em 2024, representando um crescimento superior a quatro vezes no período. Entre crianças e adolescentes de 5 a 14 anos, a quantidade de ocorrências também aumentou de forma expressiva, saltando de 6.594 para 29.135 notificações.
Outro dado que chama atenção é o local onde a violência acontece. Cerca de dois terços dos casos envolvendo vítimas de até 14 anos são registrados dentro da própria residência. Entre as crianças de 0 a 4 anos, esse percentual chega a quase 80%, evidenciando que, em muitos casos, o ambiente que deveria oferecer proteção acaba sendo o cenário das agressões.
Para a psicóloga e pesquisadora Marcella Araújo, os números demonstram que o problema vai muito além da segurança pública e precisa ser enfrentado de maneira integrada.
“A violência contra crianças não pode ser analisada apenas como um episódio isolado. Ela envolve questões familiares, sociais, educacionais e de saúde. Quando esse tipo de violação acontece nos primeiros anos de vida, os impactos podem acompanhar a vítima durante toda a sua trajetória”, explica.
Segundo a especialista, é comum que uma mesma criança esteja exposta a diferentes tipos de violência ao longo da infância, como negligência, violência psicológica, agressões físicas e violência sexual. Essa combinação compromete o desenvolvimento emocional, cognitivo e social, além de afetar a construção de vínculos e a percepção de segurança.
O levantamento também destaca a importância da escola como parte da rede de proteção. Além de ser um espaço onde muitos sinais de violência podem ser percebidos, as instituições de ensino desempenham papel fundamental na identificação, acolhimento e encaminhamento das vítimas aos órgãos competentes.
Para Marcella Araújo, investir na capacitação de professores, coordenadores e equipes pedagógicas é essencial para fortalecer esse processo.
“A escola costuma ser um dos primeiros lugares onde mudanças de comportamento aparecem. Os profissionais precisam estar preparados para reconhecer esses sinais, acolher os estudantes e acionar os serviços responsáveis. Essa é uma responsabilidade coletiva e institucional”, afirma.
O estudo evidencia ainda uma forte desigualdade de gênero. As meninas representam 86,9% das vítimas de violência sexual registradas, cenário que, segundo a pesquisadora, está relacionado a fatores históricos e culturais ligados às relações de poder e à violência contra mulheres e meninas.
Nesse contexto, ela defende que debates sobre respeito, consentimento e relações saudáveis façam parte da formação de crianças e adolescentes desde cedo, contribuindo para a prevenção de diferentes formas de violência.
A adolescência também aparece como um período de atenção. Embora a violência doméstica apresente redução proporcional nessa fase, aumentam os riscos relacionados à violência entre pares, ao ambiente digital, às agressões em espaços públicos e ao sofrimento psíquico. O Atlas aponta ainda crescimento de 41,7% na taxa de suicídio entre adolescentes e jovens entre 2014 e 2024, reforçando a necessidade de ampliar políticas de acolhimento e saúde mental.
Especialista em desenvolvimento infantil e formação de profissionais das áreas de educação, psicologia e políticas públicas, Marcella Araújo defende que o enfrentamento da violência exige a atuação conjunta de diversos setores.
“Não existe uma resposta única para um problema tão complexo. A proteção de crianças e adolescentes depende da integração entre família, escola, assistência social, saúde e políticas públicas. Quando essa rede trabalha de forma articulada, aumentam significativamente as possibilidades de prevenção, acolhimento e proteção”, conclui.

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